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Sejamos Democráticos

Não creio que a comoção generalizada a que se tem assistido no pós-eleições tenha assim tanta razão de ser. Qualquer que seja o desfecho será vantajoso para a nossa democracia. Os movimentos e alterações que esta mudança trará, trarão consigo uma cultura mais democrática e de maior diálogo.

Não se pode condenar o PC e o BE por ser um partido de protesto e quando se dá esta revolução criticar essa mesma mudança anteriormente desejada.

O “arco da governação” expressão cunhada por Portas para se incluir no mesmo e excluir os outros partidos implodiu.

Nas democracias Europeias mais avançadas é recorrente este diálogo e cedências de parte a parte na procura da melhor solução de governo.

Nas eleições legislativas não se vota para nomear o primeiro-ministro mas para que na Assembleia esteja representada a vontade expressa pelos cidadãos na sua ida às urnas, apesar de muito ainda ter que ser feito para que essa representatividade seja mais proporcional.

Tendencialmente haverá cada vez mais partidos representados o que obrigará a uma maior cooperação de todas as partes. Para além de que a tradição Portuguesa de dar ou procurar maiorias absolutas, das quais ainda hoje sofremos os efeitos das mesmas, é perversa e faz com que quem governe não mantenha o diálogo com os outros partidos. Será sempre de salutar que esta tradição se perca e que outras mais sãs sejam incorporadas na nossa democracia.

Depois dos Ganhos, as Perdas

Depois de todos os partidos terem ganhado qualquer coisa nestas eleições e todos eles terem feito um discurso de vitória, interessa agora analisar as perdas que não foram assumidas.

A coligação PSD/CDS perdeu a maioria o que obrigará a negociar e ceder em certos pontos, os cortes e a subsequente austeridade não passarão tão incólumes na Assembleia da República. Não bastará remodelar e trazer novos protagonistas, é preciso mudar, o estilo terá que ser obrigatoriamente mais conciliador e envolver os outros partidos nas negociações. Só que a crispação que houve na campanha não se esvanece de um dia para o outro.

O PS perdeu a hipótese de voltar ao poder. Algo que era dado como certo há um ano atrás quando António Costa apeou Seguro e assumiu as funções de secretário-geral e candidato a primeiro-ministro. E agora vê-se entalado entre perder os eleitores à esquerda virando ao centro ou perder os de centro virando à esquerda. Não tendo adversário à altura e devido à proximidade das Presidenciais mantém-se no cargo. Mas a aura messiânica com que iniciou funções esboroou-se e agora terá que mostrar os tão apregoados dotes de negociador e conciliador.

O Bloco de Esquerda e a CDU para não arriscarem perder a face depois de terem dito que viabilizavam um governo de esquerda, deixarão todo o ónus dessa possibilidade recair sobre as costas de Costa. Ao não colocarem como condição a saída do euro tornam ainda mais difícil as explicações de António Costa para não se coligar.

Por fim, a abstenção continua a aumentar apesar de ainda se ter pensado que nestas eleições esse constante declínio fosse estancado. Os Portugueses não estão assim tão desligados da política como os números da abstenção poderão indiciar, muitas vezes é porque não se sentem devidamente representados pelos partidos ou mais tarde na Assembleia. A introdução de círculos uninominais com um círculo nacional de compensação, sistema eleitoral misto, ajudaria a fazer regressar muitos Portugueses às urnas nas eleições, ao saber em quem votavam de antemão e não havendo perda de votos, que chegaram a ser nestas eleições mais de meio milhão de eleitores que viu o seu voto ser deitado ao lixo. Esta solução traria maior representatividade e pluralidade.

Tudo indica que esta legislatura será mais curta, não só pela perda de maioria da coligação PSD/CDS mas porque todos os partidos estarão atentos à procura do momento oportuno para haver novas eleições. Fazendo cair ou deixando-se cair para tentar arrecadar mais votos com essa jogada. O voto dos Portugueses, ou a sua mensagem aos partidos foi clara. Entendam-se! Estas jogadas palacianas poderão custar muito mais do que aquilo que já perderam.

Notícias do Fundo *

 

Apesar de aparentemente não se ter passado nada desde o início do ano para além do acidente de Schumacher e a trágica perda de Eusébio, outras coisas aconteceram.

O aproveitamento mediático de ambos os casos enfatiza ainda mais esta percepção e o aproveitamento político no caso da morte de Eusébio foi um triste espectáculo que todos nós teríamos abdicado de bom grado.

O imediatismo que se exigiu na resposta a este acontecimento é um mero sinal dos tempos, onde se quer tudo para ontem e tem-se aversão a pensar sobre os assuntos, é para fazer e logo, não vale a pena pensar sobre.

Mas entretanto houve uma emissão de dívida, o congresso do CDS-PP e a dupla recandidatura de Passos Coelho. A política já voltou, abriram-se as hostilidades para o novo ano.

A emissão de dívida correu bem e são sempre boas notícias, mas convém não esquecer que estas emissões de dívida são condição necessária para recorrer ao programa cautelar, tendo nós só agora conseguido chegar aos valores anteriores ao arrufo de Verão da coligação. Tudo isto tende a acrescentar ao facto de que a Espanha, Itália e Irlanda continuam a conseguir obter juros abaixo dos obtidos por Portugal.

Passos Coelho impulsionado pelos novos números que vamos conhecendo e vão animando o partido anunciou a sua dupla recandidatura, à liderança do PSD e às legislativas, tendo já um plano caso vença estas últimas. Temos visto o quão brilhantemente tem aplicado o anterior.

A coligação faz juras de amor e para fazer prova Passos Coelho deslocou-se ao congresso do CDS- num gesto inédito – continuando assim a demonstrar essa vontade de chegar ao fim do seu mandato ou mesmo vir a renová-lo.

No congresso do CDS não houve grandes novidades, Portas foi reeleito com uma ténue oposição, prova de que já há no partido quem ponha em causa as suas decisões e fica cada vez mais amarrado a Passos e à coligação.

Mas apesar de todos estes novos dados económicos e juras de parte a parte temo que o PS irá pedir eleições aquando do assinar ou mesmo accionar do programa cautelar, o tal que continuamos sem saber o seu desenho e as suas condições.

 

* Notícias do Fundo – O Monstro Precisa de Amigos – Ornatos Violeta *