Depois dos Ganhos, as Perdas

Depois de todos os partidos terem ganhado qualquer coisa nestas eleições e todos eles terem feito um discurso de vitória, interessa agora analisar as perdas que não foram assumidas.

A coligação PSD/CDS perdeu a maioria o que obrigará a negociar e ceder em certos pontos, os cortes e a subsequente austeridade não passarão tão incólumes na Assembleia da República. Não bastará remodelar e trazer novos protagonistas, é preciso mudar, o estilo terá que ser obrigatoriamente mais conciliador e envolver os outros partidos nas negociações. Só que a crispação que houve na campanha não se esvanece de um dia para o outro.

O PS perdeu a hipótese de voltar ao poder. Algo que era dado como certo há um ano atrás quando António Costa apeou Seguro e assumiu as funções de secretário-geral e candidato a primeiro-ministro. E agora vê-se entalado entre perder os eleitores à esquerda virando ao centro ou perder os de centro virando à esquerda. Não tendo adversário à altura e devido à proximidade das Presidenciais mantém-se no cargo. Mas a aura messiânica com que iniciou funções esboroou-se e agora terá que mostrar os tão apregoados dotes de negociador e conciliador.

O Bloco de Esquerda e a CDU para não arriscarem perder a face depois de terem dito que viabilizavam um governo de esquerda, deixarão todo o ónus dessa possibilidade recair sobre as costas de Costa. Ao não colocarem como condição a saída do euro tornam ainda mais difícil as explicações de António Costa para não se coligar.

Por fim, a abstenção continua a aumentar apesar de ainda se ter pensado que nestas eleições esse constante declínio fosse estancado. Os Portugueses não estão assim tão desligados da política como os números da abstenção poderão indiciar, muitas vezes é porque não se sentem devidamente representados pelos partidos ou mais tarde na Assembleia. A introdução de círculos uninominais com um círculo nacional de compensação, sistema eleitoral misto, ajudaria a fazer regressar muitos Portugueses às urnas nas eleições, ao saber em quem votavam de antemão e não havendo perda de votos, que chegaram a ser nestas eleições mais de meio milhão de eleitores que viu o seu voto ser deitado ao lixo. Esta solução traria maior representatividade e pluralidade.

Tudo indica que esta legislatura será mais curta, não só pela perda de maioria da coligação PSD/CDS mas porque todos os partidos estarão atentos à procura do momento oportuno para haver novas eleições. Fazendo cair ou deixando-se cair para tentar arrecadar mais votos com essa jogada. O voto dos Portugueses, ou a sua mensagem aos partidos foi clara. Entendam-se! Estas jogadas palacianas poderão custar muito mais do que aquilo que já perderam.

Qual Europa

A Europa e o projecto europeu continuam paulatinamente a definhar a olhos vistos, sendo que as eleições autonómicas ocorridas no fim de semana passado serão só mais uma acha num fogo que alastra já há muito.

Após o referendo na Escócia e agora na Catalunha, outros se seguirão, a Europa continuará a desintegrar-se. Fazendo uso desse facto e de raciocínios enviesados e xenófobos a extrema direita tem arrecadado cada vez mais votos, algo que por si só já será algo gravíssimo e que deveria estar a ser ponderado. Mas como é apanágio da União Europeia só quando for um problema ainda maior e quase insolucionável é que a mesma tomará qualquer posição.

Este aumento da extrema direita e das pretensões independentistas, apesar de serem assuntos totalmente diferentes têm pontos em comum e devem-se às crises simultâneas que a Europa atravessa.

A dívida dos países periféricos da zona euro agregada à recessão económica global em vez de unir a Europa criou uma guerra entre Norte e Sul alicerçada falaciosamente em preconceitos que tendem a permanecer. E agora a crise dos refugiados veio retalhar mais os poucos fios que ainda sustêm a coesão europeia criando mais uma cisão na Europa, entre o lado mais Ocidental e o Oriental.

Os princípios basilares da construção europeia estão todos eles postos em causa fazendo com que a sua própria manutenção também esteja. Onde é que anda a tão apregoada solidariedade europeia? O tratado de Schengen? O evitar de guerras na Europa?

Fartura

Começou a rota da carne assada que costuma vir acompanhada de demagogia e frases feitas para o telejornal. Acabaram as discussões dos programas eleitorais, embora pouco se tenha discutido. A partir de agora a retórica irá diminuir à medida que aumentam os decibéis. Arruadas com fartura e comícios para ajudar a digerir.