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A Ironia do Tempo

 

Há um ano atrás António José Seguro já se imaginava com o decorrer do tempo sentado na cadeira de primeiro-ministro, mas trocaram-lhe as voltas e lá surgiu António Costa a desafiá-lo e no fim puxando-lhe a cadeira.

Agora que António Costa também já se imaginava sentado na mesma, ficando a dúvida se com ou sem maioria absoluta, e não sendo preciso para tal grande intervenção ou mesmo nenhuma, bastando-lhe apontar para as inúmeras trapalhadas do governo. Lá apareceram de novo as vicissitudes do tempo que vieram trazer mais agruras para esse suposto passeio ameno até às legislativas.

A detenção de Sócrates e toda a cacofonia que rodeia o processo, e irá por muito mais tempo continuar a rodear, veio dificultar em muito o que parecia ser relativamente simples, obrigando a uma maior intervenção por parte de António Costa e uma maior minúcia na análise à sua conduta por parte da sociedade civil e da comunicação social.

A sua declaração pedindo para se separar as águas, denota esse cuidado e só deve ser elogiada. Mas sabemos o quão difícil será cumprir, ficando provado logo dois dias depois aquando da visita de Mário Soares a Sócrates e suas posteriores declarações ressuscitando a malfadada tese da cabala.

O congresso nacional do Partido Socialista que se irá realizar este fim-de-semana será um grande desafio à liderança de António Costa, pela maneira como irá constituir as listas, quem será excluído das mesmas dará para fazer uma leitura do que será o futuro do partido socialista e pela enorme dificuldade em supervisionar e gerir tudo o que pode vir a ser dito.

O convite a Sampaio da Nóvoa, que tem sido sondado há mais de um ano por inúmeros partidos, denota a abertura à sociedade que o partido quer demonstrar e a presença do Livre no encerramento do congresso para além de retribuir o gesto a Rui Tavares, vem na senda da procura de coligações para caso a maioria absoluta que se mostra cada vez mais difícil de obter não ser alcançada, ter outras hipóteses à mão.

Por estas e outras razões, as atenções neste fim-de-semana estarão todas elas viradas para este congresso, tentando antever algumas leituras políticas das linhas que venham a ser traçadas. E para perceber como é que se irão movimentar numa sala de cristal com um enorme elefante no centro.

Banco Mais Branco Não Há

 

Para a próxima semana irá começar a tão aguardada comissão parlamentar de inquérito ao colapso do grupo BES. Os problemas já são muitos e ainda nem sequer começou a decorrer.

De novo estamos a exacerbar o que se poderá esperar desta comissão. Já percebemos que a auditoria forense que está a decorrer a pedido do Banco de Portugal não será um elemento a ter em conta, visto ter sido negado a sua utilização invocando o segredo bancário. Só se for levantado é que será possível fazer uso da mesma, tal como noutras situações que precisarão de percorrer as diligências necessárias de modo a serem utilizadas.

Nunca houve grandes desenvolvimentos através das comissões, a não ser trazer mais alguma notoriedade aos deputados que se destaquem no decorrer do inquérito. E para além deste facto, o impacto tende a ser amenizado pois o relator é sempre do grupo partidário que quer ilibar-se do que se está a averiguar.

A decisão de só questionar Ricardo Salgado lá para o meio da comissão e perto do final do ano é um presente de Natal antecipado que lhe é dado. Não faz qualquer sentido chamar primeiro Carlos Costa, Maria Luís Albuquerque e Carlos Tavares, para além de inúmeros indivíduos titulares de pastas relacionadas com o caso que alegam ter sido enganados por Ricardo Salgado, ao ter-lhes sido negada a informação do que realmente se passava no grupo BES, ou de que apesar de terem as informações de pouco valeriam visto estarem todas elas falsificadas.

A sensação de perplexidade perante esta escolha é difícil de desaparecer. Ricardo Salgado está indiciado de crimes de branqueamento de capitais, abuso de confiança e falsificação. Mas iremos de novo e ingenuamente acreditar que as declarações prestadas serão verdadeiras, e para além disso com a decisão de o chamar a meio do decorrer da comissão, em vez de ser logo no início para depois procurar contradições, só joga em favor do acusado.

Muita tinta ainda irá correr, aguardemos expectantes os desenvolvimentos desta nova novela. Para a semana começa o novo episódio da série. Não perca.