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Muito se tem falado e escrito sobre os efeitos nocivos da austeridade excessiva e as suas repercussões na implosão da classe média, mas às vezes nada melhor do que um exemplo para tal assunto se tornar mais clarividente.

É a segunda vez que me deparo com o anúncio e desde que o li pela primeira vez nunca mais consegui deixar de pensar neste caso paradigmático. A violência exercida sobre o seu autor, como nos leitores, é enorme, mas claro incomparavelmente maior para quem agora e com cinquenta anos se viu na posição de escrever um anúncio como este.

 

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Manifestação de Descontentamento

A manifestação das forças de segurança contra os cortes previstos no Orçamento de Estado têm inúmeros pontos de vista e inúmeras leituras, mas creio que nenhuma delas seja abonatória para as mesmas.

As polícias manifestaram-se contra os cortes e afirmam que os problemas e o descontentamento são transversais a todas as forças de segurança – esse mesmo facto facilitou a própria organização da manifestação – pois todas elas concordavam que era preciso dar uma resposta comum e um aviso ao Governo de que não pode brincar com as polícias.

O problema é como tudo se passou e as mensagens que tais actos podem trazer aos outros cidadãos, bem como o fragilizar da própria polícia. Uns porque foram coniventes, outros porque não respeitaram os princípios que eles próprios devem defender.

O romper do cordão policial e subsequente invasão das escadas do Parlamento, algo que nunca tinha sido feito em outras manifestações, só foi possível pela conivência dos seus colegas e a brandura com que os seus pares reagiram. Este facto irá fazer com que em outras manifestações, as pessoas também queiram fazer o mesmo. Este precedente poderá trazer mais complicações do que aquelas que se viveram ontem, e levar a manifestações e situações ainda mais perigosas e tensas do que aquelas que já existem na nossa sociedade. Para além do facto de que nessas situações a polícia não será tão branda ou mesmo impotente como foi neste caso.

Pelo facto de representarem as forças de segurança e de um dos seus deveres ser garantir a paz e ordem pública, esta manifestação tem um importante simbolismo. As forças responsáveis por manter a ordem desobedeceram a esse compromisso e protestaram um pouco mais perto da Assembleia da República, outro símbolo da democracia e do poder.

Perigosas Coincidências

 

Tal como já foi referido, aqui, a extrema-direita continua a grassar na Europa.

A crise de 2008 fez com que os partidos anti-sistema e partidos eurocépticos despoletassem ainda mais. O excesso de austeridade e recessão, aliado à desconfiança e cinismo crescente perante o processo político, poderá vir a tornar-se numa situação calamitosa para a Europa.

A conquista de lugares no parlamento por parte destes partidos anti-sistema ou mesmo no parlamento europeu por parte dos partidos eurocépticos, poderá ser um entrave tão pernicioso como o Tea Party nos E.U.A e levar a um ciclo de ingovernabilidade.

As nuances e divergências – consoante o partido e o país – dos discursos xenófobo, racista e anti-europeu poderão não ser o suficiente para que o que mais se teme venha mesmo a acontecer, a união por parte destes partidos de modo a criar um grupo.

O facto de para tal ser preciso ter 25 deputados de pelo menos sete estados-membros e o próprio cepticismo e desconfiança entre os partidos não é garante para que esta situação deveras comprometedora não se realize.

Apesar de ténue, a possibilidade existe. E é algo que já deveríamos estar a acautelar, já que essa cautela não foi tomada pelos próprios países, há que o fazer a nível europeu. Antes que estes partidos e este discurso disseminem por toda a Europa com cada vez mais força e com consequências devastadoras para a própria.

Estas forças de extrema-direita, anti-imigração e eurocépticas ao unirem-se irão ganhar mais espaço de intervenção, usando todos os meios ao seu alcance para destruir por dentro a própria Europa.

A falta de uma resposta peremptória e conclusiva da Europa quanto à crise actual só irá dar mais tempo e espaço para estes fenómenos crescerem, aos quais já deveríamos estar mais atentos, antes que seja tarde demais.

A coincidência destes factores, crise de 2008 e o seu excesso de austeridade e recessão, combinado com a ausência de respostas, fez com que estes partidos tenham crescido.

A nível nacional, a coincidência de datas das eleições europeias com a eventual necessidade de recorrer a um programa cautelar – agora que a Irlanda prescindiu de recorrer ao mesmo – é outro factor que também merece um sério debate.