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Fugas Ruinosas

Os 9,5 biliões de euros encobertos na Europa através da evasão fiscal é um valor surreal perante as dificuldades económicas vigentes. Já se disse aqui que esta situação revela o descalabro moral e a falta de vontade política a nível Europeu para contrariar a situação.

A perpetuação conivente da UE e seus Estados membros com esta situação prende-se com determinados interesses. A Europa para tentar ganhar alguma legitimidade moral deverá acabar com os offshores nos países europeus.

A União Europeia e todas as suas instituições financeiras terão que funcionar com regras únicas e normas comuns, sob pena de que se assim não for, haverá sempre um desequilíbrio evidente dos níveis de impostos que resultará numa migração massiva de capitais, através da transferência para jurisdições com tributação mais favorável.

É verdade que têm sido dados sinais de que a UE quererá de certa maneira dificultar estas transferências, sinal explicitado nas medidas de adesão a um sistema automático de troca de informações fiscais. Senão e com os níveis críticos de tributação que se tem assistido e a possibilidade de fuga através dos países que têm offshores, haverá certamente uma fuga massiva de capitais.

A estas fugas há que juntar as outras resultantes da solução cipriota, que fez passar a ideia aos depositantes que se quiserem ter o seu dinheiro seguro terão que o transferir para outros países, tais como a Alemanha, que assim reforçam a imagem do seu sistema bancário enquanto o enriquecem. Para além deste facto, esta solução dada agora como o paradigma para qualquer outra intervenção possibilita aos países ricos deixarem de custear o reequilíbrio financeiro dos países em dificuldade, ao mesmo tempo que usurpam o pouco capital que ainda lhes resta.

A livre circulação de capitais sem harmonização fiscal, sem algo que ponha em causa a impunidade dos offshores e do seu uso irá conduzir à ruina da Europa, que não sobreviverá sem uma união politica quanto às medidas e assuntos económicos. A existência de offshores dentro da UE não se pode perpetuar face à brutal carga fiscal e esquemas de austeridade vigentes. Se assim for a Europa corre o risco de perder toda a legitimidade que lhe resta e quebrar por completo a confiança que tende a diminuir à medida que estas situações se perpetuam sem solução à vista, conduzindo os Europeus e a Europa à sua ruina.

Valha-nos Deus

Aleluia!

A 7ª avaliação da troika foi finalmente finalizada, abençoada conclusão.

Por um dia tivemos direito a algum sossego e descanso, mas que num instante ruiu quando Cavaco Silva decidiu falar. É sempre assim quando o Presidente da República nos agracia com os seus comentários, tão ricos que se torna difícil não comentar, eu próprio também não consegui coibir-me de o fazer.

Afinal a celebrada conclusão foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima nas palavras, por sinal também elas inspiradíssimas, do casal presidencial. Bem sei que é uma data propícia ao esoterismo e ao misticismo mas convém não exagerar.

Que pena, eu achava que tinha sido fruto do trabalho do governo, partidos da oposição, parceiros sociais e dos cidadãos contribuintes; creio que seria bom que estes intervenientes com peso diferenciado tivessem celebrado este feito, mas afinal estes assuntos não pertencem ao foro do profano. E tendencialmente quando algo escapa à nossa compreensão tende-se a procurar o divino e a intervenção de forças superiores para justificar a ausência de respostas.

Sendo assim, falta a penitência, exceptuando a dos contribuintes que ainda exibem as suas chagas.

Vítor Gaspar já veio acalmar as hostes, nervosas com a solução cipriota, ao afirmar que os depósitos abaixo de 100 mil euros são sacrossantos. Aguardemos, já não seria a primeira vez que algo considerado inviolável era violado.

Acreditem na virgem e não corram atrás do prejuízo que depois ninguém nos acode.

Quando a ajuda chega exige contrapartidas e na ausência destas, certamente também não haverá ajuda.

Que Deus lhes pague, porque nós já estamos paupérrimos.